Viena (cont.)

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Um passeio pelas margens do Danúbio é um convite para fazer amigos ou para passar um bom dia. Ao longo dos imensos corredores encontramos esplanadas, cadeiras de praia, bancos de jardim, etc. Há sempre muita gente a passear, a fazer desporto, a andar de bicicleta ou de patins, a passear o cão ou as ideias. Casais namoram. Grupos de amigos, sentados no chão, fazem planos para a noite, falam sobre a noite passada, riem, contam histórias e inventam outras ou simplesmente divertem-se a jogar às cartas. Há pessoas sentadas a escrever ou a pintar. Contaram-me que, com o tempo quente, há muita gente a nadar no rio e a dar grandes mergulhos. Viajei à minha infância e lembrei-me com saudade dos mergulhos e pescarias no rio Minho, na companhia do meu irmão e dos meus primos.

Tudo nesta cidade magnífica parece processar-se sem grande alarido e de forma bem organizada. O espaço comum é respeitado. Como a cidade é essencialmente plana, a bicicleta é um dos meios de transporte privilegiados e os ciclistas têm até prioridade sobre os carros. A rede de transportes públicos é fantástica e barata. Adquiri um cartão válido por 8 dias para usar ilimitadamente em todos os transportes pelo valor de 14€ – confesso que acabei por preferir visitar a cidade toda a pé, e fazia caminhadas de várias horas sempre com a sensação de estar no centro da cidade!

Os habitantes de Viena normalmente compram um cartão que lhes dá acesso aos transportes durante todo o ano pelo valor de 365€, o que equivale a 1€ por dia! Pessoas com mais de 65 anos pagam 50% deste valor e os estudantes cerca de 30%!

Nos dias seguintes visitei todas as galerias que consegui, e museus.

O museu Albertina fica no coração da cidade. Confesso que foi o museu que mais me atraiu. Visitei-o duas vezes e só da primeira vez demorei-me seis horas! A escadaria que dá entrada para o museu tem pintada um cenário idílico do Tirol que me despertou o desejo  de visitar os Alpes austríacos numa viagem futura que espero poder realizar muito em breve!  Na altura talvez troque a minha harmónica por uma gaita de foles.

As principais ruas de comércio são muito movimentadas, cheias de cafés, esplanadas, bancas com fruta, artistas de rua, coches e riquechós – sempre sorridente, o condutor convida os turistas a fazer city tours – giro della città. (em Viena há muitos italianos!)

Jovens trajados no rigor de tempos idos anunciam e vendem bilhetes para óperas, concertos e peças de teatro.

As montras das lojas, muito cuidadas, são obras de arte que se misturam com a paisagem e as pessoas. Visto ao longe parece um quadro a ganhar vida e estamos à espera que a manequim salte da montra a qualquer momento para se perder entre as pessoas que passam.

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Sou fotógrafo de alma e coração, vivo um mundo de imagens fantásticas onde, talvez, só a minha imaginação me transporta para um tempo sem tempo, onde passado e futuro se misturam no presente, e tudo o que vejo nesse momento não tem tempo. No Dom de Viena anunciam numa lona amarela o Requiem de Mozart para 2 de Maio de 2015. Um empregado de casaca amarela virado contra a parede, como um miúdo de castigo na sala de aula. As pedras do Dom cheias de histórias. Se fecharmos os olhos e encostarmos as mãos a essas pedras, penso que elas nos falarão como um livro que desfolhamos. Ao lado coches com cavalos aparelhados com gorros verdes de duendes a tapar as orelhas escondem um carro que se aproxima. Por um momento só a placa com o anúncio nos situa no tempo.

Entro numa rua mágica onde me vejo a viver contos do Walter Disney. À minha frente a gata borralheira empurra um carrinho. Logo dou com um Starbucks em frente a um restaurante grego. Mais à frente um escadote continua as pernas da silhueta dum serralheiro que monta uma janela num espaço cheio de passado à espera dum futuro mais colorido. À porta do corredor, salta-me à vista uma fotografia que me traz à memória a vocalista dos Roxette, Marie Frediksson, a deitar a língua de fora. Sigo por uma escadaria junto a um dos departamentos da Universidade de Viena, palmilhada por muitos estudantes “Till Shiva Stops Dancing”, como riscaram na parede.

Cruzo-me com um homem de fato preto, sobretudo cinza e pasta preta. Vem a falar ao telemóvel. Podia ser o ganso transformado em cocheiro no conto da Cinderela, um dos contos de fadas mais populares da Humanidade.

Já não me pergunto nada nem tento dar sentido a nada. As histórias acontecem. Regresso a casa a pé, no sentido do correr do Danúbio. Duas raparigas divertem-se a tirar fotografias enquanto saltam em frente a uma parede com graffittis. Correm para a máquina, vêem a fotografia, voltam a ligar o disparador automático, correm para se colocar em frente da lente, esperam pelo piscar do sinal vermelho emitido pela máquina e voltam a saltar. Atrás, a menina do graffitti ri com elas. Rita + Helena.

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O John Lennon espreita-me da janela do Museu da Paz com uns óculos iguais aos do Mahatma Ghandi, que por sua vez espelha um sorriso cheio de amor. O Nelson Mandela ri abertamente.  Numa outra janela duas senhoras costuram com ar de poucos amigos. Olhamo-nos de soslaio e tiro a fotografia. Na rua dois cavalos brancos olham-me com a curiosidade dos cavalos amestrados. No parque as crianças brincam entre dois mundos, a caminho de serem formatadas com regras dos maiores. A estátua do compositor Johan Strauss observa um casal asiático a imitar a pose para a fotografia.

Sempre me senti muito atraído por mercados. O mercado de Viena não foi excepção! Pequeno mas com uma oferta muito variada. Roupas, flores, vegetais, especiarias, restaurantes e bares. Cheio de animação, sorrisos, petiscos e conversas. Uns toldos de praia traçam sombras coloridas nos corredores do mercado e parecem contribuir para a boa disposição que reina neste simpático espaço.

A grande viagem é, afinal de contas, interior. A nossa imaginação dita o que vivemos e experimentamos.

E finalmente, o Tempo… O Tempo anda incerto em qualquer parte do mundo. O meu filho já não tem oportunidade de conhecer as 4 estações bem definidas que marcaram a minha infância há 4 décadas atrás. Por regra visitei a cidade em mangas de camisa. Uma vez ou outra, sem se fazer anunciar, a chuva empurrou-me para debaixo dos toldos das montras, onde fiquei a observar as pessoas mais prevenidas colorirem a cidade com os seus guarda-chuvas. Nestes momentos debaixo dos toldos das lojas nas ruas mais centrais e comerciais da cidade, acabamos também por encontrar e conhecer muitas pessoas. Foi debaixo de um destes toldos que me encontrei com o nosso embaixador de Portugal na Áustria.

Na cidade da música e da cultura, o vento parece que sopra só por cima das árvores, num suave assobio que se mistura com o coro de vozes das pessoas nas ruas.

Se decidir visitar Viena, sugiro que tire um dia para passar em Baden, uma cidade linda a não perder – o metro de superfície custa cerca de 4€ e leva uma hora, num passeio muito agradável! E Bratislava, a capital da Eslovaquia, uma cidade lindíssima cheia de museus, universidades, teatros e galerias, a cerca de 3 horas de barco, num passeio magnífico ao longo do  Danúbio.

Boa viagem!

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